O clérigo

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O clérigo

Pedro de Albuquerque  © FBN

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Às sextas-feiras, ao cair da tarde, bem apessoado e de modos distintos, ele costumava apanhar o padre de mais idade do que a sua. Porém ainda jovem, na igreja matriz do antigo centro da cidade. O cônego maestro e literata encarnava os passados diocesanos: elegantes maçons de elevada cultura humanista.

Mantinham, ele e o presbítero quem jamais o questionava de não comparecer às missas, enriquecedora, aberta e sincera amizade. Faziam-se aos bares do cais do porto, reminiscências dos “gentlimen’s clubs” do tempo dos ingleses da companhia de bondes e de iluminação pública. Aos quais, os de pouca informação ou lembranças, denominavam de uisquerias.

Naquele ambiente de democrática excentricidade. De exagerado vozerio masculino, ainda mais conturbado pela radiola de fichas a ensurdecer com Orlando Dias, Renato e seus Blue Caps, Reginaldo Rossi, Cláudia Barroso, Lindomar Castilho e Waldick Soriano. Sentados nos bancos corridos das longas mesas, uns discursavam propostas socialistas e o imediato retorno dos líderes exilados. Outros aparteavam a vociferar contrariados.

Afixada na parede, devidamente emoldurada, uma cópia do retrato da rainha da Inglaterra. Reduto do maior ecletismo frequentado, a um só tempo, pela esquerda diletante e pela direita reacionária ilustrada por ativistas de gente da burguesia: industriais, corretores mercantis e de valores, médicos, advogados, escritores, jornalistas, práticos da capitania dos portos, fiscais da aduana, delegados, agentes de polícia, da receita federal e arapongas do Serviço Nacional de Informações.

Onde todos buscavam uma companhia feminina mais atrevida e tinham acesso, a preços módicos, aos produtos do contrabando: uísque, champanhe, cigarros, charutos, perfumes e toda a sorte de parafernálias. Enquanto um guarda civil, aposentado, passava o resultado do jogo do bicho e, a conferir, pagava eventuais apostas e fazia o câmbio de dólares. Inonimada expressão da leniência.

Era, no entanto, vedado a permanência das mariposas. Autorizado apenas o desfile das candidatas aos excessos da masculinidade, para não escandalizar os circunstantes. Assim, os acertos dos encontros clandestinos davam-se por discreta sinalização. A consumarem-se nas casas de recurso da vizinhança. Enquanto a cafetina, ao balcão, distribuía fichas a fazer o caixa na sua desfaçatez.

Sucediam-se rusgas, não escaramuças. Trocavam-se impropérios. Jamais a chegar às vias-de-fato e tudo acabava em abraços e etílicas confraternizações. Dali, jamais saíra uma denúncia. Fazia-se daquela barafunda, sagrado abrigo do sórdido cotidiano de repressão política. O próprio governador do Estado e o pessoal do partido alto do tribunal de justiça e da câmara, ali tomavam assento na boemia inveterada.

O chefe do executivo fora o máximo como beque central e, ainda na plenitude juvenil, precocemente galgara o posto de secretário da fazenda. Erudito de inflamados discursos à profusão de idéias liberais. Com a eletrola silenciada, declamava os poetas da terra e os portugueses Camões, Bocage e Fernando Pessoa… Regozijava-se de ver-se ovacionado pelos mais azulados e os mais avermelhados. 

Apercebia-se, o amigo do padre, de causar-lhe embaraços os efusivos cumprimentos do governador. A fazer ressentir a uns e outros na disputa de ressabidos favorecimentos. Conheciam-se desde adolescência, no subúrbio foram companheiros do mosqueiro de um quilombola bonachão: sargento da polícia militar, patrono da irrefletida rapaziada.  

Onde se disputava, na pueril virilidade, furtivos encontros em um cubículo de fundos em que se iniciavam nas aptidões do sexo os caseosos neófitos. Sendo os bem sucedidos, celebrados em ruidosa algazarra a exibir, nesses batismos, a glande de prepúcio arregaçado. 

A beberagem de limão, açúcar e aguardente açulava os ânimos com as partidas de sinuca e dominó, quase sempre encerradas no quebra-quebra dos tacos, no arremesso de bolas e no voar de peças e tabuleiros. Mas, tudo acabava em boa paz e no rateio dos prejuízos a pagar. Nem por isto, eram vândalos. Mas, seleta clientela de rapazes de boa família.

Próximo morava um dentista e o seu filho, encantados pela juventude e sequiosos de amores. De quem, da sua prodigalidade, se valiam os menos favorecidos. Atendia-os sem nada cobrar pelas obturações e o implante de aparelhos ortodônticos. Solícitos patriotas, em única ocasião os dois, pai e filho foram paraninfos de boa parte de uma turma de formandos do curso preparatório de oficias da reserva do exército brasileiro.

Mais adiante morava um técnico de educação física de colégios particulares. Cuja esposa e as duas filhas, disputadas entre os mais abastadas, faziam a alegria da garotada. Na sua ausência, à sua calçada não faltava um carro pronto ao lazer e serviços das beldades por todos cobiçadas.

Contudo, de volta à uisqueria. Finda a assembléia de salutar urbanidade regada ao bom escocês, seguiram para uma cerveja e o jantar em uma cantina de único cardápio. O típico doce de mamão verde temperado ao cravo da índia, desvendava o segredo do amaciante do bife de patinho que ganhava o nome de filé à parmegiana acompanhado de espaguete. Tudo a nadar no molho de tomate de duvidosa culinária, amarelado do parmesão de ínfima qualidade. Mas, o local e o horário facultava-lhes a troca de confidências. O chantre, então, irrompeu:

– Eu tenho de lhe advertir de algo!

– Do quê?

– Você é mesmo desligado, ou dissimulado… Nada observa?

– Eu não sou dissimulado.  Apenas, o que me não afeta, me não incomoda… Mas, do quê se trata?

– Os seus amigos parecem incomodar-se comigo.

– É natural, com um padre no reduto da esbórnia todos ficam contritos. Mas, eu os disse que você é um liberal. Não um monsenhor catequista. Um homem culto de idéias avançadas.

– Demais avançadas… Eu sou homossexual!

– Você pode mesmo ser veado. Eu sempre desconfio dos religiosos… traumas de colegial. Mas, você não é uma bicha louca!

– Eu não sou veado nem bicha, eu sou homossexual… Há uma grande diferença!

– Por Deus, qual é?

– O homossexual tem convicções, é recatado. Não é promíscuo, se não permite a assédios abertos. Zela por sua dignidade. A bicha é-lhe antagônica e, ainda, há os polivalentes. Os mariconas.

– Mariconas?

– É de como chamamos os enrustidos. O secretário de segurança é um maricona!

– Eu entendo. Maria João… De noite é Maria, de dia João!

– Está vendo como você é desligado. Você se compromete. Jamais diga entender, isto é jargão de identidade. Você se não pode passar por entendido. Diga sempre, eu compreendo!

– Pois bem, eu compreendo. Jamais eu direi eu entendo. Deus me livre… Mas o quê tenho haver com as suas opções e convicções?

– A maledicência é perversa. Esta assiduidade dos nossos encontros. Você pode ficar falado!

– E com quem eu iria conversar, com este rebotalho ignorante? Discutir futebol e falar das mulheres, do dinheiro e dos carros dos outros? Ora, já dizem de mim o diabo. Burguês falido, aristocrata renegado, esnobe, oportunista, caloteiro, descarado e filho da puta. Qualquer coisa a mais, nada tem a acrescentar-me!

– Ao menos, falam a verdade. Mas, ganhar a fama do quê se não é… gigolô de puto, é demais!

– Os mais ricos, notáveis e ilustres homens desta terra têm por fama serem ladrões, cornos e veados. O próprio arcebispo é tido por desfrutável. Ao menos, eu não seria um estranho no ninho e gozaria de boa companhia. Não seja por isto… Portanto, a mim não interessa!

Os dois, a desatarem gargalhadas, pediram por mais uma cerveja. O clérigo disse-lhe das paixões do provincial da ordem, para quem ele seria um postal de homem a encarnar as suas fantasias. Pois, insistentemente, o havia inquirido manterem ou não um caso e se poderia alimentar esperanças.

– E o quê mais você o disse?

– Que você não é entendido. Não leva jeito. Que eu o acompanho desde criança. Dos meus tempos de seminarista, quando eu tirava férias no colégio ao lado da sua casa e você sempre ocupado das suas vizinhas. A não ter tempo de chorar as perdas, por está sempre apaixonado… A verdade, ora!

– Mas, até o provincial, aquele gigante nórdico da voz de trovão, a rugir na masculinidade de Thor?… Junto a quem eu mais pareço um efeminado!

– Pois, com toda macheza ele é um maricona. Você não lembra daquela noite em que você me foi deixar no convento, preocupado comigo por havermos bebido além das contas, acompanhou-me até a portaria e ao alcançarmos o patamar da escadaria nos deparamos com ele?

– Jamais esqueci. Desconcertante… “Mas, se a voz é tão bela como o vulto, encantaria mesmo aos anjos. Vai participar do coral da matriz?”. Assédio imotivado. Mas, isto não é prerrogativa dos homossexuais. Os heteros, o mais das vezes, costumam valer-se das circunstâncias de superioridade para a consecução dos seus intentos.

– Deformações de caráter, próprias do homem em si.                                                            

– Então, nada há excepcionar. Por que cuidar de certas distinções, preconceitos? Vale a conduta, não as preferências… Ora, a  todos iguala a perversão!

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Comments
5 Responses to “O clérigo”
  1. Dulce Morais disse:

    Levou-me a um ambiente que eu desconhecia por completo, a um tempo que não deixo de me surpreender e a uma leitura de que gostei muito.
    Obrigada e parabéns!

  2. Tania Cassiano disse:

    Gostei! Tava sentindo sua falta! Abrao.

  3. carmen maria almeida teixeira disse:

    Pedro

    “O que não me afeta, me não incomoda”

    Mas a ausência de um novo e delicioso conto afeta e nos faz falta.

    Camen

  4. G. Pedro Linn disse:

    Teu conto remonta minha época e me faz resgatar memórias que pensava ja no limbo! Obrigado meu caro e querido ” tocaio” Pedro/ Pedrao! Mais uma vez vc se supera! Abracao!!

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