Frederick

Frederick


Pedro de Albuquerque © FBN

Despertou cedo a caminhar pelos jardins. Daquela vez, um ritual. O copeiro serviu-lhe o dejejum. Alimentou-se como um automóvel bebe o óleo derramado no cárter. Mirou o jornal depositado à sua esquerda, tudo a lhe parecer pretérito. A mulher sorriu a ele sem palavras. Vergou o paletó tomado a um cabide ao canto da sala e despediu-se do genro, sem mais sorrisos.

O motorista abriu-lhe a porta traseira do carro, esquivou-se e tomou a dianteira sentando-se ao seu lado. Fez-se ao antigo centro da cidade. Mandou-o estacionar nas docas. Observou os estivadores a carregar um navio com sacos de açúcar. Mirou o horizonte cendrado. Pediu ao auxiliar por um cigarro, quem surpreso replicou:

– São demais ordinários, meu senhor!

– Perguntei? 

Pegou-lhe da carteira, retirou um dos cartuchos e o acendeu. Tragou e sentiu a tóxica fumaça irritar-lhe a garganta e, ao tragar, queimar-lhe o estômago. Tossiu ao baforar. Cabisbaixo encaminhou-se, a pé, a passos contados, ao escritório de um capitalista onde cinco homens igualmente empolados, sentados à uma mesa, levantaram-se, cumprimentaram-no e ofereceram-lhe assento a cumprir solenidade.

Com desprezo deu de vistas aos papéis que lhe foram repassados e, sem os ler, firmou os contratos. Pegou da ordem de pagamento à sua disposição. Despediu-se em silêncio. Encaminhou-se à agência bancária, onde o seu tesoureiro aguardava-o. Mandou-lhe proceder ao depósito. Endossou mais outros títulos. Passou-lhe a bolsa e disse-lhe para sacar algum montante.

Despediu-se. Caminhou pelas calçadas, com todos os transeuntes a cumprimenta-lo a tocar nas abas dos seus chapéus. Parou frente a um mendigo e deu-lhe algumas notas de mais valor, quem atônito retribuiu-lhe com um sorriso. Fez-se a uma casa de câmbio. Foi a uma comissária de negócios.

Adentrou um bar refinado. Fitou o retrato da rainha da Inglaterra afixado ao centro da parede da direita. Sentou-se, bebeu três ou quatro uísques com os fulgurantes olhos azuis embotados e as feições congestionadas. Sentiu aquecer o peito e recuperar a fisionomia e, assim, retirou-se. Taciturno, seguiu a esmo pelas ruas. Ao passar pelo Fórum, alguns advogados e meirinhos cumprimentaram-no. 

À tardinha chegou de volta em casa. Os gritos de felicidade dos netos e as suas risadas, mais o atormentavam. As crianças acercaram-no e a todas afagou, como de sempre, a distribuir-lhes guloseimas. Beijou a filha. Mirou numa tela, a um canto da sala, a paisagem de um dos seus antigos engenhos herdados dos avós do seu sogro. Fitou o genro e, discreto, meneou a cabeça, afirmativamente.

Subiu a monumental escadaria. Cerrou a porta dos aposentos. Visualizou-se de corpo inteiro ao espelho do penteador. Ajeitou a gravata. Depositou na cama a pasta com moeda estrangeira. Junto a ela, algumas apólices de ações ao portador. Pegou de uma pistola automática e deitou-se. O frio do aço do cano da arma, na abóboda palatina. Ouviu-se o estopim, cumprira-se o terrificante desiderato.

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Comments
2 Responses to “Frederick”
  1. Dulce Morais disse:

    Leitura intensa para um final que, se não é surpreendente, é trazido com segurança através de uma escrita que só pode deixar admirativa a modesta leitora.

    Perfeito!

  2. Tania Cassiano disse:

    Rquiem…

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