O Clandestino

O clandestino

Pedro de Albuquerque © FBN

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Uma simples rua no centro de uma cidade qualquer. Não fosse cruzada pela Marcone e tão próxima à Praça Dom José Gaspar. Ao seu final, a estação do metrô. Tudo a ser tão comum, a não merecer registro, em nada o houvesse marcado a solidão e, notadamente, as incertezas. Mais o pavor da exclusão.

A biblioteca municipal, o seu único refúgio. Depois de horas a perambular, ali se fazia inclusivo. Resgatado o prazer de sentir-se comum, mesmo no figurino ao melhor da burguesia: caríssimo casaco negro e luvas de couro da mesma cor e echarpe a manter o calor do corpo abrigado do frio. Cumprimentava a todos, abria os principais jornais e, na ilusão de comungar dos outros, sumia-se no cotidiano.

Dias após dias, todos os telefones das cabines públicas a serem-lhe demais conhecidos. A identificar os com defeitos, sabe-se lá por fraude de quem, assim a economizar as suas fichas a passar horas a trocar ameaças e impropérios via ligações interurbanas.

Nas mesas, nos balcões dos botecos, mais um café com pão de queijo, mais um bem tirado chopp de colarinho. Por companhia, os remorsos. Estrangeiro na sua própria terra, a cumprir exílio interno. Por fim, deu de encontro com um amigo a quem muito se apegara. Um monumento aos negros de Serre Leoa, sempre com as suas roupas de roxo desbotadas, senhor do pedágio dos estacionamentos irregulares.

A própria identidade e as lembranças, o seu maior tormento. A dever meses de aluguel, com a sua esposa e filha ameaçadas de despejo, sob a massa de mira do síndico imigrante sérvio e racista. Causava-lhe arrepios depender das gentilezas de um forasteiro. 

Instado ao porre, pediu por um rabo de galo e mais uma cerveja. Perdeu a compostura. Fitou o amigo e inquiriu dele acaso saberia de um otário o qual tivesse um carro para alugar e de um agiota o mais salafrário. Também precisaria de um policial corrupto, de um gerente de banco leniente e de um contabilista insuspeito.

Naquele quadrante da Barão de Itapetininga, Ipiranga, São Luís e Nove de Julho, tudo se arranjaria. Tudo entraria nos conformes. Inquietava-lhe o preço da informação. Grátis, tudo lhe parecia mais custar. Pois, o sigilo tinha-lhe valor e preço. Mais barato pago a vista e a peso de ouro, do que a crédito ou por obséquio.

O flanelinha levou-o a um dos antigos apartamentos de luxo próximo à rua Augusta. Um velho, decadente e efeminado, metido em um “hobe chambre” vermelho de cetim adamascado, o recebeu todo sorrisos. Perguntou, então, do automóvel e do seu preço. A mais saber de um depósito em consignação.

O ancião, de olhos azuis acinzentados, respondeu-lhe com mais um sorriso. Repousou as mãos ao seu peito e ajeitando-lhe o echarpe disse-lhe nada exigir além da sua palavra. Recebeu as chaves e correu-lhes vistas. Notou da estrela: um Mercedes Benz. Ressabiado, quis saber do nome do dono e dos documentos. Assim, constatou da procedência do veículo: Paraguai.

Impossível retroceder. Tudo lhe saíra a mais do encomendado. Era pegar ou largar. Ou pior, ver-se cassado. Fizera negócio com o diabo. Somente quem o acudiria, já que Deus parecia havê-lo abandonado. O velho encarnava a requerida trindade do mal: agiota, policial e contabilista. Mas, o profissionalismo, haveria de emprestar-lhe tranquilidade.

Passou um cheque para trinta dias. O velho indicou-lhe uma garrafa de cristal e mandou-lhe servir-se do escocês decantado. Pediu permissão e sumiu no apartamento. Com pouco mais reapareceu com cinco dobras de dinheiro. Insistiu para que ele mais bebesse. Ao que se recusou.

O amigo acompanhou-o a um edifício garagem na Rua da Consolação, Ao deparar-se com o carro, a maior surpresa. de último modelo de capota escamoteável. Assim, intuiu de que a sua mulher e a filha, por segurança, jamais poderiam daquilo usufruir. Mesmo assim, fez-se à Rua Armando Ferretini.

Quitou os alugueres e, dias depois, voltou ao velho com doze brilhantes de um quilate cada. Comprados em Santa Helena, fronteira da Venezuela. Os olhos do agiota incandesceram-se, pegou de um copo com ácido e meteu as pedras logo a flutuar. Com uma minúscula escumadeira de cera de abelhas as retirou e as passou em água corrente.

Tomou de uma pinça de Moz as mediu a aferir do peso. Com uma lupa ao olho direito examinou da sua lapidação e fez o preço. Descontou mais um mês de aluguel do carro, os honorários devidos e os juros pela liquidação antecipada do cheque já que o estava pagando com o seu próprio capital. Ele protestou e o sujeito retrucou:

Ora, não sejamos incoerentes. Se não fosse por mim, como você pagaria as suas dívidas? Aliás, você mudou-se do Paraíso. A filha no Colégio São Luís dos jesuítas. Bela família. Leve esta sua foto como souvenir! Afinal, como é viver em Cerqueira Cesar, melhor, não?

Tanto melhor, apesar dos custos!

Mas, para quem paga e respeita o lucro dos outros, nada há temer. Você tem mais pedras?

— Posso encomendar. Mas, as coisas em Roraima estão difíceis!

Ora, a caixa forte da Falcão Filho não é tão distante!

Ficou perplexo de como o velho tivera notícia do seu movimento no Banespa do Viaduto do Chá. Fora, todo o tempo, o mais discreto possível. Raramente por lá passava. Sempre, quando o fazia, apanhava o metrô.  Ao menos soubesse da sua conta no Safra da esquina da rua Augusta com a avenida Paulista. Como diabos aquele sujeito tanto penetrara a sua vida? Era-lhe, pois, de alta periculosidade.

Haveria de matá-lo? Noites de insônia a meditar e a planejar. Pegou da sua Browning nove milímetros, limpou-a e lubrificou-a e enroscou-lhe o silenciador. Pela madrugada, efetuou alguns disparos no parque da Aclimação, para garantir-se da munição há muito sem uso. Contudo, ainda lhe venderia mais alguns diamantes para capitalizar-se. Estava decidido, o bandido nada tinha a perder.  Somente não admitia refém a sua família. Além do mais, lutava por estabelecer-se.

Passaram-se semanas. Foi ao encontro do amigo, a quem apanhou na Praça da República e fez-se às redondezas ao Largo do Arouche para tomar umas cervejas. Viu-se colhido pelo imponderável: a notícia da morte do velho. Nisto, inquiriu do que fazer com o carro. Deveria abandoná-lo?

Não cara. O velho não tinha ninguém por ele. Tinha aquele papo cavernoso, mas, de verdade gostava de você!

Porra e os meus documentos?

Ele não guardava nada às vistas. Tudo era muito secreto. Tinha caixa forte em todo canto, em nome de quem se sabe lá. O velho era um cartório de registro civil. Ninguém, mesmo sabia da sua identidade!

Mas, o carro. O quê fazer para me não complicar?

Ninguém vai atrás. Esquece. Os homens, os canas, farão a partilha do que está ao alcance. Já depenaram o apartamento. O carro está em nome de um laranja. Eu conheço o babaca. Ele assina por pouco mais, ou nada. Na Barão de Limeira tem um cara que paga o preço em grana viva, o Portuga!

Mussunda, brodinho, isto vai dar certo?

Por quê não? Ninguém mais quer saber do velho. Os homens meteram ele no sacolão e passaram o zíper na maior farra. O cara já está na pedra fria, cumprindo o prazo de lei!

Todo bandido é bem informado. O Portuga conhece o carro e se quiser segurar a mercadoria?

Tu tens uma mão de ferro?

Ele abriu o casaco e exibiu a Browning no coldre à axila esquerda. Puxou do bolso interno o silenciador. Sorriu. O riso é, por vezes, a mais horrenda prova da inteligência. Levantou-se e com discrição correu mãos aos quadris. Sentou-se e por debaixo da mesa entregou-lhe um revólver de grosso calibre.

Pega, é teu, Colt 357, mas somente depois de completamos o serviço. No carro tem uma Moesberg doze de cinco tiros, para cobrir a fuga. Mas, quanto tu queres?

Porra cara, tu é foda. A gente tem de respeitar e ainda mais com um canhão no carro… Dez por cento!

Firme!

Tu é um mafioso do caralho!

Não, eu só luto para sair desta e, assim, eu me garanto. É muito dinheiro, para mim e para ti. Tu deverias aproveitar para mudar a tua vida. Tu não tens como adivinhar outra oportunidade!

Tudo de cima… Bora mano?

Bora. Mas, tu tens um defeito. Um metro e noventa e cinco de altura… Alvo fácil. Melhor à noite, porque tu, negro, basta tirar as roupas para ficar invisível. Daí, tu és uma assombração!

A bronca é o ferrão do negro aqui… Do teu tamanho, maninho!

— Vai-te, porra, com a tua superioridade fálica!

Falido é tu, eu nasci fudido mesmo!

Havia de confiar na ingenuidade do amigo. A fidelidade é um valor absoluto, inato ao sujeito que se projeta e identifica-se no reflexo do outro por simples troca de olhares.  A educação deforma-a e empresta-lhe relatividade.  Já ele, nas suas experiências, houvera padecido das mais pérfidas traições. Veio-lhe à mente nascer o homem bom, livre e feliz. A sociedade a fazê-lo mal, escravo e desgraçado*.

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** Jean Jacques Rousseau em ” O Contrato Social”.

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