Tragédia

Tragédia

Aos poetas

Gilberto Freyre e Willem Elsschot

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Pedro de Albuquerque © FBN 

Morreu-lhe a vida em duras palavras. O tempo presente, particípio passado. O céu de fulgurante azul fez-se-lhe de cendrado chumbo. Aos perjúrios tão comum aos amantes, nada respondera. Meteu dinheiro no bolso da sua velha calça jeans e danou-se para um botequim, baluarte dos desafortunados. 

Pediu por uma cachaça para arrefecer o calor e congelar o peito. O licor escorreu-lhe suave garganta a dentro. Ao bater no estômago, há dias vazio, quis regurgitar. Mas, conteve o espasmo. Afinal, o órgão acostumara-se em ajudá-lo a digerir sapos. Vieram-lhe lágrimas, não de saudades dos momentos felizes. Mas, dos anos de vida a não mais recuperar: inequação do quanto mais se soma, tem-se a subtrair.

Trair, não traíra nem fora traído. Traiu-se ele, traiu-se ela. Traíram-se na louca ânsia do amor. Argumentos contrapostos, vozes a irritar. O hálito de um, o olor da morte do outro. Melhor não ouvir e nada falar. Agora, os abraços sufocavam-nos. A cama, um esquife. A alcova, uma urna cinerária.

Pensou no lar de outrora a realizar-lhe a vida. No despertar matutino com o sol ainda por levantar-se. No sorriso da mulher a tudo iluminar. Nos seus afagos. No prazer de dar-se na certeza de completar-se. Nos gatos, ao ouvir a sua a voz, a saltar-lhe na cama e o papagaio a grasnar por seu nome e a assobiar. Assim, levantava-se revigorado para tudo enfrentar. Mesmo a penúria, à qual se não acostumara. Veio-lhe à mente, então, ser toda festa véspera de ressaca. A alegria, o limiar da amargura.

Mandou vir-lhe uma cerveja para lavar a alma, bebeu esta e outra mais. Outra pinga a celebrar da primeira mulher. O casamento, igual fiasco. Cansara do bangalô do começo do século passado no Pacaembu, devaneios de qualquer abastado. Das noites no Saint Paul, da mesa reservada e do champanhe. Do Baiúca e do uísque. Aos sábados, ao invés da igreja ou da sinagoga, fazia-se ao Brás para bebericar e jogar gamão e dominó a apostar com a gente simples do comércio de estivas.

Nada teria a dizer das suas esposas. Apenas não liam o que ele escrevia, nem mesmo dos seus poemas que a crítica desprezava. Pior, quando liam, dos seus comentários nada a emendar. Decidiu-se por ir para Salvador. Ficar por lá trepado em um terraço de frente para o incandescente azul do mar da Bahia de Todos os Santos e de quase todos os pecados. Da sua gente de todos os matizes. Das suas ruas de atmosfera impregnada do dendê a fritar acarajés.

Ah, Salvador da Baixa do Sapateiro com o Santíssimo Sacramento a ser elevado e uma negra a parir. O cheiro de alfazema a queimar para espantar os maus espíritos e o remédio para o sífilis anunciado num letreiro!

Gente gorda, magra, pobre, rica, branca e preta. Daqui e dacolá, de africanos de ontem e de portugueses ou galegos de hoje. Quanta judiação. Quando hoje gente cigana, mascate e camelô à moda de Paris. E porque não dizer, em Salvador estrangeiro é gringo ou alemão. Mas é tudo a mesma coisa. Pois a massa é real,  cresce no zimo ideal.

Mas, não. Desta vez iria danar-se para os Inhamuns. Longe, no sul do Ceará. De paisagem sexual. Dos maciços de catingueira, salpicados, nos tempos de chuva, de vermelhos ao sol como pingos de sangue fresco. De amarelos vivos e de roxos untuosamente religiosos. No verão, chupados pelo sol de todo esse sangue e de toda essa cor. Quase reduzidos aos ossos dos cardos, um mundo de formas esquisitas. De ascéticos relevos ósseos. De meios-termos grotescos entre o vegetal e o humano.

Como quem por vaus e fogo corre, a buscar o amor que tanto o abrasava, resolveu-se por voltar à casa a dar-se com a mulher. Carregado do álcool a pesar-lhe e o corpo morto de sono. A mulher virada na cabra cabriola  a deitar fogo pelos olhos e pela boca. Nova briga irrompera. Mas, quando ele descobriu, como a névoa do tempo nos olhos da mulher, fagulhas apagara com o olhar tomado de tormento.

Maldisse-se em furor e a barba arrancaria. Com os olhos a mediu, mas nada para excitar e esta infâmia ele viu em danação mudar. Enquanto o olhava ela, ressupino a morrer, tremeu a dó, mas curada ficou. Morrer não morreu e falar, nada falou. Queixar-se não ousaria..          

Dar cabo dela e meter fogo na casa… Matar não matou nem mataria. Ora, entre o delírio e o agir, atravessam-se leis e questões várias. A melancolia para a qual faltam razões e que à noite acomete. Trocaram cediços impropérios com a mãe de um a referir a do outro. Por fim, os dois abraçaram-se a chorar o adeus a adiar e, assim, ajoelharam-se e beijaram-se apaixonadamente. Ela a esvair-se em lágrimas, a nada confessar. Adormeceram, despertaram e, uma vez mais, de encantos  o dia fez-se resgatado.

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Comments
5 Responses to “Tragédia”
  1. Pedro, me encanta o arrebatamento dessas suas palavras.Quanta cumplicidade!

    Barcos e saveiros. Correnteza. Rancor de ventos brabos. A cidade, relação e conivência. Sedução, doces suspiros materializados. Desejos e vontades em paçocas de amendoim. Dúvidas, deixaria ao ritmo do pilão, confissões ao almofariz. Ah, é o medo por tentar o incerto. E do gozo, a perda, por não tentar .

    Nesta cidade de pleno sol, de ruas e becos estreitos, de colinas e ladeiras – visões surpreendentes. Barcos e saveiros, partidas e chegadas. Um tempo de portas abertas. E no quarto da frente a janela para o nascente é cordialidade.
    Cheiro de baunilha traz alegria de tempo fértil. E no café recém coado, a satisfação imediata. Um olfato contente.

    Um grande abraço,

    Amália

  2. Pedro, agradeço pela deferência. Adorei o texto. Aliás, estou adorando!
    ( I shared it in may faceb. page)
    Um grande abraço!
    Amália

  3. CRISTIANE E CASTRO FEITOSA MELO disse:

    Pedro, o texto está belíssimo!!!… PARABÉNS.
    Um grande abraço.
    Cristiane Feitosa

  4. carmen maria almeida teixeira disse:

    Pedro, amei! Lindo seu texto.

    A lembrança dos momentos bem vividos não nos trazem saudades e sim uma sensação gostosa de felicidade. Duro mesmo, é ” o prejuízo dos anos de vida a não recuperar”, aquilo que por covardia ou pressão social deixamos de vivenciar – o abraço contido, a palavra de carinho não pronunciada, o beijo não dado.

    Um abraço amigo.

    Carmen Maria

  5. G. Pedro Linn disse:

    Pedro/ Pedrao! Teclar em tela de um minúsculo iPhone faz com que erros crassos de grafia aconteçam! Foi o que ocorreu em meu comentário a seu conto ! Sou dos tempos d’ então e ainda nada hábil nestes novos e maravilhosos meios de comunicação ! Desculpas portanto ok? Abrs ! G. Pedro.

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