Caustico

Cáustico

o discurso do inusitado

Pedro de Albuquerque © FBN

O pai, alvo do serviço nacional de informações. Predileto da receita federal. Assíduo das boas rodas do Copacabana Palace, a vestir “pure mohair extrafine” e gravatas Boucheron. Ou uma blue jeans, camiseta, casaco de linho cru, calçado mocassim de crocodilo e, no punho, um Vacheron Constantin.

Íntimo de outros iguais expoentes da doce vida, com quem se ocupava em desocupar-se. A disputar espaço na coluna de Ibrain Sued de grandes elucubrações. À sua mesa, na Colombo, políticos a cobrar-lhe o preço da facilidade na dificuldade. De quem herdara a mais calamitosa falência

Casara sim, casara não. O sogro: russo, judeu ortodoxo, mão-de-vaca, especulador da bolsa de valores. A vestir único terno cinza desbotado de rósea na gola carcomida do paletó. Chapéu de cor difusa, de suor queimado à carneira. Sapatos de couro rachado e de cadarços rotos. Meias brancas, encardidas e socadas a meio tornozelo.

Às voltas com o muquirana, quem o obrigava aos jejuns e sermões da boa doutrina econômica. Às sextas-feiras refugiava-se no Guanabara do Anhagabaú, no Baiuca ou no Brhama da Ipiranga. A não mais suportar a inadequação, mesmo apaixonado dos fulgurantes olhos azuis da esposa.

Pernas, para o quê as quero? Esvaziara o guarda-roupas e a tudo transferira para o Mosteiro de São Bento logo acima do seu quartel general na cabeça da São João, onde pediu à mulher que o deixasse para o costumeiro almoço de bacalhau à espanhola, quem o inquiriu a não abusar da beberagem e, assim, o fez jurar.

De lá rumou para Congonhas e debandou. Enchera o saco do burburinho asfixiado da Paulicéia. Passou-se ao Ceará. Queria a paz do Mucuripe: sol, sal, caranguejo, lagostim e cerveja. Sem mais sogro e sogra. Lenço e documento… Feliz como Adão.  

Mas, especialista em fazer rolar a bancarrota e auferir bons proventos. Uns clientes italianos convocaram-no e, assim, regressou. Contudo, a não mais Tristão encontrar Isolda. Sentou praça no Ca D’oro e escritório na Avanhadava, em frente ao Famiglia Mancini.  Atrás da grande sinagoga. Os finais de tardes a curtir “blues” no Pensilvânia, ali na Paulista.

Nova paixão… Por sogro e sogra, os mesmos que o contrataram. Os almoços da Moca,  as frivolidades e o trato pecuniário enfadaram-no… Uma vez mais, bateu em retirada. Costumava, aos sábados pela manhã, caminhar pelo centro antigo e tomar umas e outras para conversar com o povo e descansar da burguesia.

Era Natal. No viaduto do Chá, um homem que lhe vinha em sentido contrário chamou-o a atenção. Percebera da sua angústia. Atrasou os passos e conteve-se para melhor dirimir do assédio. O infeliz parecia querer agarrar-se em qualquer pessoa.

O transeunte, bem vestido, a denunciar boa posição social, de súbito atirou a pasta à rua. Guinou à direita e pousou as mãos no alambrado. As mulheres gritaram. Os homens gritaram. Ele gritou. Todos gritaram. Apoiou o peso do corpo e jogou-se para a abissal eternidade. Ele, testemunha da desgraça, ficou ali estarrecido a não sentir as pernas. Houvera, ainda, tempo para trocar o olhar com o desgraçado e gesticular a querer impedi-lo.

Um ônibus passou por cima da bolsa. Voaram papéis e umas notas de dólares. Petições com chancelas de protocolo forense. Conheceria daqueles documentos. O choque fê-lo voltar à infância em que amargara por igual ato de um ente amado. 

Um abastado industrial do açúcar. Sempre gentil e afetuoso. Sempre com guloseimas nos bolsos para distribuir aos netos e seus amigos. Amante das tardes de verão, a desfilar garboso ao seu cavalo, sempre acompanhado da sua maior paixão: a única filha.

Não suportara a ruína a qual escondera da família e arrastara ao genro. Chegando em casa, com todos à mesa para o jantar, beijou os netos. Afagou a esposa. Beijou-o e deu-lhe chocolates.  Subiu aos aposentos e, então, ouviu-se o terrificante estopim. A venda das ações da companhia não bastou para saldar as dívidas, nem pagar o décimo terceiro dos operários. De certo, se não advertira de Dante Alighieri.

Quantas vezes, em seus tropeços, pensou igualmente em tamanha asneira como solução? Mas, o impedira o exemplo do seu pai: esperar na sorte, não na morte. Assim, aprendera a vida ser único momento de muitos aspectos, para resistir no imperativo das expectativas. Ora, ao dobrar-se uma esquina, há sempre algo de surpreendente.

Seguiu em frente, deixou o Largo do Patriarca, dobrou a Rua de São Bento à esquerda. Tomou a Cavalheiro Basílio, a Ladeira Porto Geral e a Rua da Cantareira. No mercado público, em um boteco, pediu por um conhaque para recompor-se.

Uma mulher sentou-se ao seu lado a compartilhar do balcão e sorriu-lhe. Recíproco, perguntou dela o nome e do que fazia. Disse-lhe ela estudar letras e história e o repassou um poema da sua autoria. Maravilhado por seus olhos negros, cabelos acetinados, tez maltada e talhe graciosamente esbelto. Tudo a desvanecer as imagens da agonia do homem ao viaduto. A discussão e o acerto de métrica avançou tarde ao fim, com os dois embevecidos.

Ela quis saber dele do que fazia… Socorrista do infortúnio, do resgate de arruinados exercia o seu mister. Quanto mais fundo o buraco, tanto melhor. Administrador do caos, o problema a não ter solução, indicava-lhe a própria estratégia. Pura inequação, a sua matemática.

Ele a disse que, naquele mesmo dia, iria para Salvador de avião. Adorava a Bahia. Amava o seu povo. Queria descansar da neurose compulsiva e da neurastenia dos paulistanos. Ela protestou do mesmo. Mas, deveria evadir-se de ônibus e só na próxima semana.

Ele ponderou resolvido a adiar a viagem. Nisto um rotundo Papai Noel passou seguido de uma banda a executar marchinhas. Comprou para a filha uma vaquinha de plástico, com um pingente a contrapeso que a fazia andar. Os dois beijaram-se apaixonados.

O bodegueiro desatou risadas, depositou-lhes rosas vermelhas à frente, abriu um espumante e os festejou. Levantaram-se, abraçaram-no, ergueram os copos e confraternizaram-se. Uma vez mais beijaram-se e, de mãos dadas, na garua desapareceram.

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Comments
4 Responses to “Caustico”
  1. Tania Cassiano disse:

    Discurso do inusitado. Enquanto descrevia a paisagem… o vesturio, reporto-me dcada de 50, apesar do blue jeans (faz tempo que as pessoas no do o nome certo s coisas).Bonito, nostlgico, dolorido, mas cheio de esperana.

  2. G. Pedro Linn disse:

    Pedro/Pedrao ! Grato pelo envio de seu conto! Como sempre, o Pedrao superando o Pedro cada dia mais e mais!! Abrs !

  3. carmen almeida disse:

    Em Causticoi – um homem despido, revelando suas paixões, desencantos, esperança renovada e regada por uma suave garua. Conduz a beijos sem reservas trocados ao anoitecer, num singelo barzinho popular. para. a seguir sair de mãos dadas sob ares marejos, descompromissados, livres, valorizando o ato de amar – simplesmente amar. Vida que se renova. Parabéns. .

  4. Belo conto! Sintético e expressivo, como um conto deve ser. O único bemol que faço – algo que me saltou aos olhos – é o uso excessivo dos três pontos de suspensão. Quebra a leitura e abre um silêncio desnecessário ao meu ver. Com um simples ponto final, você introduz e ambienta melhor a atmosfera que entremeia todo seu escrito. Meus parabéns! Mande mais quando puder. Abraço!

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