Botequim

Botequim

toda coincidência é mera possibilidade

Pedro de Albuquerque © FBN

Sol a pino. Fome canina de bater um papo, devorar o vazio existencial. Como de sempre o gato siamês de cara preta e olhos azuis do céu, à hora certa, por ele esperava ao pé da porta. Ao ouvi-lo falar, o papagaio assoviou e grasnou estérico… O seu trivial despertar.

Na noite anterior, violara os seus arquivos: fotos de uma sua mulher. Trinta e mais anos ressuscitados. Prazo de prescrição. Como se houvesse distinção entre o passado, o presente e o futuro. O bastante para não provocar as chusmas de ciúmes e cizânias.  Linda, um camafeu. A três quartos, a prender os cabelos com uma das mãos e a deixar o colo à mostra. O suficiente para tê-la nua, de volta aos seus braços.

Sutil elegância da antiga burguesia. Houvera passado anos no balé da Ópera de Paris. Ao caminhar, mais parecia flutuar. Ao dançar para ele, só para ele, uma Salomé desvairada a pedir por sua cabeça a prêmio: pairava na sua lembrança.

Deixara o marido rico e petulante e vivia com um francês da Normandia, das feições de corsário. Realmente, um pirata a faltar-lhe tão somente o olho de vidro e a perna de pau, exceto a cara de mau. Endinheirado, controlava a pesca da lagosta e a sua exportação.

Exímia cozinheira. Conheceu-a por acaso, ao jantar, com uma sua namorada, em seu restaurante a sobrolhos de umas dunas com o mar distante a vislumbrar.  Uma pequena orquestra rompera acordes e ele convidou a companheira para o acompanhar à música. Ao que ela se negou ou por timidez ou por falta de traquejo, ao argumento de que naquela casa esnobe se não dançava: coisas de subúrbio.

Bela, vergando um diáfano avental de organza bordada em tons pastéis, viva alucinação a passar por sua mesa. Ele, sem vacilo, dela indagou acaso poderia dançar. Ela o sorriu com o riso a despir-lhe e disse para ficar à vontade. No ímpeto do arrebatamento ele pegou da sua mão, abraçou-lhe a cintura e fizeram-se ao ritmo. Causa do fim do caso que teria sido o fim da sua carreira de desocupado.

Outra noite, ele retornou sequioso. Havia no jardim uma longa mesa, toda ornada, e ele conhecia a todos os circunstantes. Reservadamente, mandou encomendar e vir-lhe rosas vermelhas. Sentou-se sem compromissos e pôs-se a tagarelar toda sorte de bravatas de um caseoso rapazinho eivado de frivolidades.

Ela sentou-se ao lado do bucaneiro. Surpresa com as flores ao centro da mesa, muitas a vulgarizar. Beijou o amante e abriu o envelope. Sacou do cartão, crente da vida de ter sido do corsário e passou a ler, em boa voz, a dedicatória.

Um indecoroso poema que o garoto havia escrito da sua paixão e, ainda, não era poeta. Sorte sua não haver assinado. Apenas, ao encerrar, assentou disforme interrogação. Dizia a glosa da sua paixão. Pueril e inconsequente expressão a provocar ressabidas consequências.  De acintosa métrica, termos desmedidos:

                                                      “… de mim, nada dizem os verbos na presença tua

                                                      tu, que te quero nua

                                                      o teu corpo é único beijo

                                                      delírio de cores, pelos, odores e sabores

                                                      assim, desespero, rasgo-me

                                                      dispo-m’e a ti consagro os humores”

O rival, colérico irrompeu como um bisão. Ergueu-se. Esmurrou a mesa. Atirou fora as rosas. Esbravejou e sentenciou de morte o autor de tamanho desacato. Macho demais, ferido na sua vaidade, em sua incontida brutalidade puxou-a pelo braço a querer saber de quem se tratava o canalha. Ele, então, denunciou a si e cadeiras voaram em sua direção: seguidas de todos os impropérios.

O homem lançou-se contra ele. Os convivas interpuseram a contê-lo. Pior, mais pior, ela deu de costas e rasgou o cartão. Tão amado cartão. De súbito voltou-se para manda-lo retirar-se a não mais querer vê-lo a causar transtornos e adverti-lo de ser um incauto forasteiro.

O francês deu caça dele por todos os lugares do buchicho daquela cidade. Mas, ele não foi embora e se não permitiu esconder. A pouca idade desafia a morte. Só os mais velhos aferram-se à vida por não mais saber valorizá-la. Um seu primo, rico e atrabiliário, meteu-se na rixa e preveniu ao estrangeiro de que ele seria de fácil matar, de que lhe estaria grátis se algo sucedesse.

Renitiu em mandar mais flores e poemas à amada. Certo dia a encontrou desprevenida em um jantar na casa de uma sua prima. Tomou-a pelo braço, com discrição, para falar-lhe. Ela perguntou dele se era louco ou idiota. Ou uma criança metida a besta ou neófito de cafajeste.

O rapagão tomou o maior porre a perder a compostura e frente a todos, ajoelhou-se… Pediu-lhe perdão. Explicou-lhe dos seus versos, a emenda pior do que o soneto. Declamou e aos brados jurou do seu amor a chamá-la de estúpida e de egotista. 

Verdade é que ela veio a separar-se do corsário e o deixou sem mão de gancho, sem cais e sem nau, à deriva no vau, apenas com a cara de mau. Assim, não mais se separaram por cinco anos de lua de mel em sua plenitude.

Dez anos passaram-se de quando se deixaram. Não por desamor. Mas, por haverem compreendido que as idades lhes não permitiam expectativas. Ele tornou àquele arrebol. Foi com uns primos à discoteca do momento. Afastando-se do grupo para curtir a música, dois homens, a uma mesa, convidaram-lhe. Desavisado, sentou-se. O galego morrudo puxou conversa:

— Então cara. Há quanto tempo… Seja bem vindo!

— Desculpe-me. Eu não sabia que a boate era sua. Também, eu não o reconheci. Não mais aborreço aos inimigos. Vou retirar-me!

— Não, está tudo bem… Ela morreu!

— É, finalmente nós dois empatamos… Perdemos!

O bacana mandou vir uma garrafa do melhor escocês e beberam por toda a noite a dissolver os ressentimentos. Um a chorar copiosamente e o outro a confortar. Abraços de sentir a ela presente. Nunca mais, ele e o pirata tornaram a encontrarem-se. Hoje, aferrado da idade em que o conheceu, parece-lhe temer a morte e a viver desaprendido.

Assim, ele voltou aos vinte com ela aos trinta e um anos. A lembrar-se de quando, pela primeira vez, naquela cidade hospedara-se no melhor hotel e ela passou pelo saguão de cabelos presos à nuca, saia de cós transpassado, por cima da malha e calçada de sapatilhas. A dirigia-se ao escritório do marido… O poema? Ah, o poema, bem... tudo do seu alumbramento!

* Versos do próprio autor ©

 

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Comments
2 Responses to “Botequim”
  1. “O poeta se faz vidente por meio de um longo, imenso e refletido desregramento de todos os sentidos. Todas as formas de amor, de sentimento, de loucura; ele procura ele mesmo, ele esgota nele todos os venenos, para só guardar as quintessências”. ( Quintessências – Baudelaire).

    Alumbramento. Fenômenos enganadores habitam o abissal dessa perversa ilusão cromática. Acontecimentos espetaculares fazem desse universo uma realidade soberana. Entre os amantes, o desejo. Vínculo que aglutina, na certeza que propicia. Cumplicidade inevitável. Temperamental. Às vezes fatal.

    A capacidade do trágico na condição humana, o absurdo, entre aspirações e realidade. Para desmascarar o cinismo e o vazio por trás de códigos reguladores, caberia o grito ao ser, sua insatisfação. Mas o homem é um nada. Abandona aqueles que ama, e também é abandonado. O homem é impotente perante as desgraças que presencia, por isso mesmo finge não as ver.

    A necessidade do contato e da reflexão ao tato nos leva à leitura do homem cego. Com certeza sugere uma leitura de código Braile. Extrapola o conceito, para além da objetividade que se pretende em si. Nessas suas entrelinhas nota-se o desencadear de uma escrita sutil que levará o observador para além da leitura que parece sugerir. Na plasticidade estética da sua linguagem existe provocação; desvendar o real atrás da porta.

    A meu ver, a arte do cortejar poderá ser sintética. Ou melhor, subjetiva. Atende a um corte esguio e limpo, tendendo ao minimalismo, diria eu. Para não dizer, ao animalismo espetacular.

    O tenso momento. A pressa. Seria este o agente catalisador de todo o processo na paixão do sentimento que avassala. Uma vez exibido, corpos nus, tudo na pressa será desmontado. O licor desse cálice logo se evapora. Sem perspectiva, nem promessas de permanência. O amante então terá que ser hábil ao manter a quintessência, o sabor inerente.

    O espetáculo do acontecer é rápido. Logo secará a saliva do beijo. E, as rosas, logo se veem murchas. Tudo será aterrado sob a avalanche avassaladora do momentum. Esquecido será.
    Mas, tudo é permitido ao ser quando acredita no seu “Alumbramento”. Sem mentiras. Somente o contato de pele já vale a pena. Às vezes o silêncio aflora, reforça o mistério que o ser emana. Se nada tem a dizer, melhor ficar calado. Nem é preciso justificar.

    Amália Grimaldi

  2. Tania Cassiano disse:

    Ah! Pedro, menino vadio…

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