Amsterdã


Amsterdã é mesmo uma festa e bem vale mais do quê uma missa.  Trinta inimagináveis dias: inesquecíveis!

A juventude. As mais belas e sociáveis mulheres do mundo. O dia todo ou de bicicleta, ou de barco, ou a pé, ou de bonde.

Ana de Amsterdã. Ana portuguesa. Ana judia. Olhos de rapadura e beijos de melancia.

O sol do inverno ao romper das nuvens e o céu azul. Muita luz,  enfim: calor! A mesa do pub na calçada, à beira canal. O aconchegante Jodenburt: o bairro judeu-português. Watherloo. Muntplein.  A monumental Sinagoga Portuguesa. Saudades!

Verdade que eu não estico as noites. Sempre prefiro o dia. O dia, seja manhã, seja tarde. O sol, a vida. Uma cerveja. Uma boa companhia. Mulher; lógico! Sempre uma mulher para alegrar o coração e aquecer a alma. Acaso existe outra opção? Acredito que não!

Tem algo mais surpreendente do quê uma mulher, a qual se acaba de conhecer? Não; tem não! É sempre uma ilusão.   A oportunidade de dar um crédito a mais à vida. Daí, tudo fica mais rico. Quanto mais regado a uma excelente cerveja, acompanhada de um rolinho de queijo ao molho picante para ativar a conversa fiada? Sem propósitos quaisquer. Apenas, um mal intencionado bate papo  descompromissado.

O meu transporte favorito em Amsterdã. Com o meu amigo, taxi driver, o armênio a quem eu o chamo de Aznavour.

E lá vem a nevasca. As nuvens a cobrir o sol. Agora, é outra vez a vez de dentro do pub. Todo mundo junto, sentado ao balcão a rir, a cantar. Agora é a vez do abraço. O frio insta à juntada dos corpos. Os cabides, ao lado da porta de entrada, repletos de casacos e de chapéus. Agora tudo é descontração.

O barman bate o sino. Mais um barril de cerveja espirra alto e o aroma se assoma de todo o ambiente. Mais um copo de meio litro. Outro mais. Mais outro. Agora um beijo a misturar os hálitos de pura levedura.

Agora é dar-se às mãos e disparar a correr meio a nevasca. A rir-se dos bobos de si mesmo. O amor é somente uma farsa. É o frio que mais o atiça. Correr pelas calçadas à beira canal. Há sempre um canal por onde o Amstel se embrenha num labirinto infindo. Há sempre uma ponte a vencer. Há sempre uma esquina a dobrar e todo um mundo a descortinar.

Amsterdã é uma cidade de muitas esquinas. É que há cidades sem esquinas, como Brasília: horrível! Vazia de gente e cheia de carros. Amsterdã, não. Amsterdã é cheia de gente. É gente demais. Gente bonita. Gente culta. Gente sensível. Gente jovem para cá e para lá de bicicleta. É um mundão de bicicletas.



Agora é descer os degraus da calçada e fazer-me à minha casa. O apartamento é abaixo do nível do canal com o passeio à meia janela. O canal, abaixo do nível do mar. É que hotéis e excursões me são detestáveis. É a vez do vinho junto à lareira e tudo é encenação para uma melhor sedução.

É o papo de jeito maneiro a dançar coladinho: de feição. É o taco de queijo na boca. É o naco de pão. É um beijinho aqui, outro ali. Um aperto a mais e um mais atrevido escorrer de mão. É tirar fora os agasalhos e jogá-los ao chão, ao lado do sofá. É jogar os sapatos para o alto. É despir-se. É despojar-se.

Um poeta amigo meu. Antônio Campos. Em um acesso de Marcel Proust. Atreveu-se em dizer que o sexo acontece quando o amor não nos alcança. Ora, isto é dano moral direto por frustração de expectativa! Pois, o amor é dar-se e o sexo a sua expressão!

O amor, bem, o amor é tão somente o amor. É isso aí! Sem essa de tudo definir, rotular: neurose! O sexo é apenas uma oportunidade ensejada ao amor pelo amor. Bem, se não se é alcançado pelo amor, isto é lá outra coisa. Mas que o sexo acontece, acontece. Deita, rola, enrola e a gente se aquece e se não mais esquece!

Por isto mesmo, se não pode sonegar oportunidade ao amor. Agora, portanto, é fazer-se debaixo dos cobertores. É a vez da mulher amada. Dois vaga-lumes a incendiar a vida. Azuis e cinzas e verdes e violetas! É o inebriar-se do calor dos corpos abafados. É o cair no delírio de cores, pelos, odores e sabores. Depois, dormir profundamente. Mas, quê perda é dormir em Amsterdã!


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