A preço e muito pago
A preço e muito pago
elegia de fé em prosa
de simples versos
cantos, tantos, quantos
poeta: Maximiano Campos
Pedro de Albuquerque © FBN 414509
Há quanto me tenho dado de cansar em busca do amor. Tanto cassei, quanto cansei. Como gastei. De mim, carne e energia. De sobra, sombras e cinzas. Tão cinzas quanto o dia que deixei pelo luzir das noites, com as quais eu me entorpecia. De energia, conto pouco. Aos poucos conto. Conto ponto a ponto. Mesmo porque, o álcool o qual à carne me consumia em mesma combustão ardia.
Nessa danada alquimia. Noites varadas e roubado o dia. De mim, fez-se-me amante a boemia. De nada tenho a reclamar. A dizer-me de tudo insatisfeito. Deu-me mais em lucidez as noites; do quê em sanidade o eito. Certo que tudo vai a preço e muito pago. Opção da qual me fiz sujeito e, assim, me trago a mim. Trago a trago: em qualquer botequim.
Ora, quem não tem para onde voltar, é porque não tem para onde ir! Se não tem para vir. Não tem para ir; de nada vale partir! Desvario, joga-me à cara a medíocre unanimidade. Mas, não! Sereno, eu ponho com idade. Eu; inquilino do tempo: passageiro da eternidade.
Se a opressão enlouquece mesmo a um sábio, quem dirá ao mais comum dos mortais? Quem dirá de mim? Portanto, não! E o que é da loucura, além do exaspero da consciência? Vai-te, angústia dos desvalidos. Onde a tua razão? Nada mais dos meus dias espero: pudor, amor, dor ou clemência. Tampouco dos meus ais e sais. Além de ter-me assim. Mesmo a mim; por fim!
À deriva dos anos. Quiçá dos anjos e dos muitos que encontrei da guarda. Lanço âncora onde a infância alarda. É-me terror a noite em sonhos passada. Eu, algoz de mim. Mais o tormento da insônia aclarada. A tantos devo, ficam-lhes tostões. Aos quantos amados: lidas recordações. Nada de pobre, nada de vil, sequer de metal atulho em féretro, ou em inventário lego. Mas, nada sonego. Levam-me as traças as roupas. Já os cupins: os cabides e o armário.
E neste breviário, mesmo a carne eu deixo. Vai-se do pó ao pó, a que eu a desleixo. E, se da tumba reflete-se o Limbo. Numa réstia de luz. Ao que a escuridão seduz. Resgata-me a eternidade. E tudo é vida, mesmo nos profundos do inferno. Quiseram matar-me os outros. Pois, morreram-se! Diabos assassinos! Cúmplices do tempo a roer-me o fígado! Mas eu não morro; não! Eu teimo e hiberno … seja verão, seja inverno.
